Friday, June 19, 2020

Requiém para Proust

A verdade e o amor são um ponto de vista sobre as coisas, para Proust, já que nossa época é histórica desse ponto de vista não podemos sair. Sabemos por lastros o que foi esse sentimento em épocas passadas, mas não podemos captar a essência do que fora esse para uma única pessoa. Por isso, quando falamos é a verdade daquilo que se mostra sobre um único olhar. O nosso sentimento de existência tal o palpitar íntimo de um animal, a carência dos homens da caverna, sem teogonia nem escrita, a fragilidade de um segundo posta nos séculos de uma civilização sendo destruída. 

TRANSPOR AS PERSONAS OUTRA VEZ

O TEATRO NO LIMIAR DO TEMPO E DAS FORMAS

Noutro segundo, eu me voltava e tentava viver em outras épocas, das quais não teria registro senão pelos livros ou pelas obras de artes, alguns escritores que habitavam tão fora de seu ser, que chegavam a habitar em mim, e passava por séculos de civilizações ao tempo em que o registro das sombras dos objetos chegavam da cena até mim e recompunham os registros de meu próprio eu.
Talvez a imobilidade das coisas ao nosso redor lhes seja imposta pela nossa certeza de que tais coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nossos pensamentos em relação a elas. Na verdade, é que tudo girava ao meu redor, e as coisas elas mesmas eram capazes de se tornarem apelos de guerra, asilos políticos, diplomacias ao vencedor, dores transpostas ao choro das árvores mortas.

AS RELAÇÕES DE SABER E CONHECIMENTO SWANN CAMINHA JUNTO.  

A memória é incômoda quando não se consegue apartar, o quarto por devoção ainda nos escapa, se trata de um quarto de hotel. As relações de olhar para o mundo sempre são de dor. E a literatura sangra quando fala de seres humanos. A memória é aquela que provoca a ferida do ser natural e que também cicatriza. Ela dança além da luz, ela sobretudo dança entre o sol e a noite. A verdade nunca pode ser vista.
A casa dos ipês não é casa dentro da pedra que não é casa de vidro na qual a história se refletiu três vezes quando subverteu-se a ordem de tempo e espaço. O antes era antes e era quando tudo podia decair nas formas abundantes. Lutamos por identidades.
Parecia-me um encanto especial essas brilhantes projeções que emanavam de um passado merovíngio e faziam passear a meu redor tão remotos reflexos de história. Há a influência anestesiante do hábito para que não se sinta todas as coisas como tristes e pesadas.
Acho bem razoável a crença céltica de que as almas das pessoas que perdemos se mantêm cativas em algum ser inferior, um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, e de fato perdidas para nós, até o dia que para muitos não chega jamais em que ocorre passarmos perto da árvore e tomar posse do objeto que é a sua prisão.
O mesmo se dá com nosso passado. É esforço baldado tentar encontrá-lo, ele está escondido, fora de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material (na sensação de que esse objeto material nos daria), que estamos longe de suspeitar. Tal objeto depende  apenas do caso que o reencontremos antes de morrer, ou que não o encontremos jamais. 



Nicanor Parra

Para Bolanõ: Nicanor Parra, foi um dos maiores poetas do século vinte: inventor da antipoesia: um poesia não eloquente, próxima à língua cotidiana, irônica, sarcástica, subversiva e provocadora.

Aqui, mais um poema da antologia Só para maiores de cem anos. 

Ritos

Cada vez que regresso
A meu país
                    depois de uma longa viagem
A primeira coisa que faço
É perguntar pelos que morreram:
Todo homem é um herói
Pelo simples fato de morrer
E os heróis são nossos mestres.

E em segundo lugar
                     pelos feridos.

Só depois
                     não antes de cumprir
Este pequeno rito funerário
Me considero com direito à vida:
Fecho os olhos para ver melhor
E canto com rancor
Uma canção do começo do século. 

Nicanor Parra



Cartas do poeta que dorme numa cadeira

I

Eu digo coisas tal como são
Ou sabemos tudo de antemão
Ou nunca saberemos absolutamente nada.

A única coisa que nos permitem
É aprender a falar corretamente.

II

Todas as noites sonho com mulheres
Algumas riem ostensivamente de mim
Outras me acertam um golpe na nuca.
Não me deixam em paz.
Estão em guerra permanente comigo.

Me levanto com cara de trovão.

Do que se deduz que estou louco
Ou pelo menos que estou morto de medo.

III.
Custa bastante trabalho crer
Num deus que deixa suas criaturas
Abandonadas à própria sorte
À mercê das ondas da velhice
E das doenças
Pra não dizer nada da morte.

IV

Sou dos que saúdam as carroças.

V

Jovens
Escrevam o que quiserem
No estilo que acharem melhor
Já correu sangue demais por baixo das pontes
Pra continuar acreditando – acredito
Que só se pode seguir um caminho:
Em poesia tudo é permitido.

VI

Doenças
Decrepitude
E morte
Dançam como donzelas inocentes
Ao redor do lago dos cisnes
Seminuas
Bêbadas
Com seus lascivos lábios de coral.

VII

Fica declarado
Que não existem habitantes na lua.

Que as cadeiras são mesas
Que as borboletas são flores em movimento perpétuo
Que a verdade é um erro coletivo
Que o espírito morre com o corpo

Fica declarado
Que as rugas não são cicatrizes.

VIII

Toda vez que por alguma razão
Tive que descer
Da minha pequena torre de tábuas
Voltei tiritando de frio
De solidão
De medo
De dor.

IX

Já desapareceram os bondes
Cortaram as árvores
O horizonte está cheio de cruzes.

Marx foi negado sete vezes
E nós continuamos por aqui.

X

Alimentar abelhas com fel
Inocular o sêmen pela boca
Ajoelhar-se numa poça de sangue
Espirrar na capela-ardente
Ordenhar uma vaca
E derramar-lhe o próprio leite na cabeça.

XI

Das nuvens do café da manhã
Aos trovões da hora do almoço
E daí aos relâmpagos do jantar.

XII

Eu não fico triste facilmente
Para ser sincero
Até as caveiras me fazem rir.
Cumprimenta-os com lágrimas de sangue
O poeta que dorme numa cruz.

XIII

O dever do poeta
Consiste em superar a página em branco
Duvido que isto seja possível.

XIV

Só com a beleza me conformo
A feiura me causa dor.

XV

Última vez que repito a mesma coisa
Os vermes são deuses
As borboletas são flores em movimento perpétuo
Dentes cariados
Dentes quebradiços
Eu sou do tempo do cinema mudo.

Fornicar é um ato literário.

XVI

Aforismos chilenos:
Todas as ruivas têm sardas
O telefone sabe o que diz
Nunca perdeu mais tempo a tartaruga
do que quando tomou lições da águia.

O automóvel é uma cadeira de rodas.

O viajante que olha para trás
Corre o sério perigo
De que sua sombra não queira seguí-lo.

XVII

Analisar é renunciar a si mesmo
Só é possível raciocinar em círculo
Só se vê o que se quer ver
Um nascimento não resolve nada
Reconheço que me caem lágrimas.

Um nascimento não resolve nada
Só a morte diz a verdade
A poesia mesmo não convence.
Nos ensinam que o espaço não existe

Nos ensinam que o tempo não existe
Mas seja como for
A velhice é um fato consumado.

Seja o que a ciência determinar.

Me dá sono ler os meus poemas
E no entanto foram escritos com sangue.

Nicanor Parra (Obra grossa, 1969)