A verdade e o amor são um ponto de vista sobre as coisas, para Proust, já que nossa época é histórica desse ponto de vista não podemos sair. Sabemos por lastros o que foi esse sentimento em épocas passadas, mas não podemos captar a essência do que fora esse para uma única pessoa. Por isso, quando falamos é a verdade daquilo que se mostra sobre um único olhar. O nosso sentimento de existência tal o palpitar íntimo de um animal, a carência dos homens da caverna, sem teogonia nem escrita, a fragilidade de um segundo posta nos séculos de uma civilização sendo destruída.
TRANSPOR AS PERSONAS OUTRA VEZ
O TEATRO NO LIMIAR DO TEMPO E DAS FORMAS
Noutro
segundo, eu me voltava e tentava viver em outras épocas, das quais não teria
registro senão pelos livros ou pelas obras de artes, alguns escritores que
habitavam tão fora de seu ser, que chegavam a habitar em mim, e passava por
séculos de civilizações ao tempo em que o registro das sombras dos objetos
chegavam da cena até mim e recompunham os registros de meu próprio eu.
Talvez
a imobilidade das coisas ao nosso redor lhes seja imposta pela nossa certeza de
que tais coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nossos
pensamentos em relação a elas. Na verdade, é que tudo girava ao meu redor, e as
coisas elas mesmas eram capazes de se tornarem apelos de guerra, asilos
políticos, diplomacias ao vencedor, dores transpostas ao choro das árvores
mortas.
AS
RELAÇÕES DE SABER E CONHECIMENTO SWANN CAMINHA JUNTO.
A memória é incômoda quando não se consegue
apartar, o quarto por devoção ainda nos escapa, se trata de um quarto de hotel.
As relações de olhar para o mundo sempre são de dor. E a literatura sangra
quando fala de seres humanos. A memória é aquela que provoca a ferida do ser
natural e que também cicatriza. Ela dança além da luz, ela sobretudo dança
entre o sol e a noite. A verdade nunca pode ser vista.
A
casa dos ipês não é casa dentro da pedra que não é casa de vidro na qual a
história se refletiu três vezes quando subverteu-se a ordem de tempo e espaço.
O antes era antes e era quando tudo podia decair nas formas abundantes. Lutamos
por identidades.
Parecia-me
um encanto especial essas brilhantes projeções que emanavam de um passado
merovíngio e faziam passear a meu redor tão remotos reflexos de história. Há a
influência anestesiante do hábito para que não se sinta todas as coisas como
tristes e pesadas.
Acho
bem razoável a crença céltica de que as almas das pessoas que perdemos se
mantêm cativas em algum ser inferior, um animal, um vegetal, uma coisa
inanimada, e de fato perdidas para nós, até o dia que para muitos não chega
jamais em que ocorre passarmos perto da árvore e tomar posse do objeto que é a
sua prisão.
O
mesmo se dá com nosso passado. É esforço baldado tentar encontrá-lo, ele está
escondido, fora de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material (na
sensação de que esse objeto material nos daria), que estamos longe de
suspeitar. Tal objeto depende apenas do
caso que o reencontremos antes de morrer, ou que não o encontremos jamais.